Existe uma confusão que atravessa muitos anos e que, silenciosamente, afasta duas categorias de pessoas do magnetismo humano.
A primeira categoria engloba quem tem fé.
Essas pessoas chegam ao magnetismo com uma história espiritual já construída, seja no espiritismo, no catolicismo, em práticas orientais ou em qualquer outra tradição e precisam saber se o que vão aprender contradiz ou interfere com o que já acreditam.
A segunda categoria inclui quem não tem, ou não quer ter, nenhuma fé específica.
Terapeutas, profissionais de saúde, curiosos científicos e agnósticos.
Essas pessoas se aproximam do tema e recuam quando percebem que o ambiente ao redor parece exigir uma crença como pré-requisito.
Nos dois casos, a pergunta de fundo é a mesma: o magnetismo humano é religião?
A resposta é não.
Mas ela precisa ser desenvolvida com cuidado, porque a confusão não surgiu por acaso.
De onde vem a confusão entre magnetismo humano e religião?
O Brasil tem uma relação particular com o magnetismo.
Aqui, a prática chegou fortemente mediada pelo espiritismo kardecista, que a incorporou como elemento central de sua prática.
O passe espírita, praticado em centros por todo o país, é talvez a forma mais conhecida de imposição de mãos com intenção terapêutica na cultura brasileira.
Essa popularização colapsou, no imaginário coletivo, dois territórios que são distintos por origem, fundamento e propósito.
Quando alguém diz “magnetismo”, grande parte do público brasileiro pensa imediatamente em centro espírita, em médiuns, em passes coletivos após a reunião.
A associação é compreensível historicamente, mas imprecisa tecnicamente.
O magnetismo humano antecede o espiritismo em pelo menos um século.
E mais do que isso, antecede qualquer estrutura religiosa organizada que o tenha adotado.
Portanto, sua genealogia é filosófica e empírica antes de ser espiritual.
O que é religião e o que não é?
Antes de continuar, vale nomear o que estamos chamando de religião, para que a distinção não pareça arbitrária.
Religião, em seu sentido mais estruturado, envolve três elementos centrais:
Uma cosmologia (uma explicação de como o mundo e o além funcionam), um conjunto de crenças que organizam a relação entre o indivíduo e o sagrado, e uma comunidade de pertencimento com rituais, hierarquias e práticas compartilhadas.
Nenhum desses três elementos é necessário para praticar magnetismo humano.
Um magnetizador pode trabalhar sem nenhuma cosmologia religiosa, sem qualquer crença em entidades, vidas passadas ou dimensões espirituais, e sem pertencer a nenhuma comunidade de fé.
O que ele precisa é de um repertório técnico, de atenção treinada e de compreensão dos princípios que orientam a prática.
Isso não é uma posição anticlerical nem uma negação do valor das tradições espirituais.
É simplesmente a descrição do que o magnetismo é em sua forma original.
Como o magnetismo humano surgiu?
Franz Anton Mesmer, médico formado em Viena no século XVIII, construiu sua teoria dentro do vocabulário da física e da medicina natural da época.
Ele não era um líder religioso, não fundou nenhuma tradição espiritual e não propunha nenhuma cosmologia do além.
Sua hipótese central era a existência de um fluido universal que permearia todos os corpos físicos e que poderia ser influenciado por um operador treinado para fins terapêuticos.
A linguagem era a da ciência natural.
Os modelos de referência eram o magnetismo mineral, a eletricidade estática e a gravitação.
Mesmer queria ser reconhecido pelas academias científicas.
Após Mesmer, a tradição se desdobrou em diversas direções.
O Marquês de Puységur, um de seus principais discípulos, documentou o estado de sonambulismo magnético, que mais tarde seria estudado como precursor da hipnose.
James Braid, no século XIX, desenvolveu a hipnose clínica a partir da observação dos fenômenos mesmeristas, propondo explicações estritamente neurofisiológicas.
Então, toda essa linha de desenvolvimento manteve o magnetismo dentro de um campo investigativo secular.
A entrada do magnetismo no território religioso foi uma incorporação posterior, feita por movimentos que encontraram nessa prática um elemento compatível com sua visão de mundo.
O espiritismo foi o mais influente desses movimentos, especialmente no contexto brasileiro.
Mas, o fato de uma prática ser adotada por uma religião não transforma a prática em religiosa.
A meditação é praticada dentro do budismo e também em hospitais laicos para redução de stress.
O jejum está presente em praticamente todas as tradições religiosas e também em protocolos de saúde metabólica sem nenhuma conotação espiritual.
O mesmo princípio se aplica ao magnetismo.
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Qual é a relação entre o magnetismo e a espiritualidade?
Há ainda uma camada intermediária que merece atenção:
A distinção entre religião e espiritualidade.
Por um lado, muitos praticantes de magnetismo que não se identificam com nenhuma religião específica descrevem sua experiência com a prática como profundamente espiritual.
Relatam estados de presença expandida, sensação de conexão com algo maior, percepção aguçada, momentos de quietude interior que diferem do relaxamento comum.
Essas experiências são reais e merecem ser levadas a sério.
Por outro, elas não tornam o magnetismo uma religião.
A espiritualidade, entendida como dimensão da experiência humana que envolve sentido, transcendência e conexão, pode ser vivida dentro de religiões, mas não se reduz a elas.
Então, o magnetismo pode tocar essa dimensão sem exigi-la como pré-requisito e sem organizá-la em dogma.
Isso ocorre porque ele é uma prática que pode ser absolutamente laica para quem a quer laica, e pode ressoar profundamente com a dimensão espiritual de quem a quer espiritual.
Sendo assim, essa abertura não é uma vagueza conceitual, mas uma característica estrutural da prática do magnetismo humano.
Por que distinguir magnetismo da religião?
Quando um terapeuta de saúde que não tem vínculo religioso decide aprender magnetismo, ele precisa saber que não será exigida nenhuma conversão, nenhuma crença prévia, nenhuma filiação a nenhuma tradição.
Isso porque o aprendizado parte de fundamentos históricos, técnicos e, onde disponível, científicos.
Quando um espírita decide aprender magnetismo pela sua raiz clássica, ele precisa saber que isso não representa abandono ou contradição de sua fé, mas ampliação de repertório.
Desse modo, ele pode integrar o que aprende dentro de sua própria visão de mundo sem que isso seja um problema.
Portanto, quando um agnóstico ou ateu se depara com o tema, ele precisa saber que a questão da crença é, simplesmente, irrelevante para o aprendizado técnico da prática.
Ciência, espiritualidade e magnetismo: onde cada um começa?
A ciência contemporânea ainda não dispõe de modelos consolidados para explicar todos os fenômenos associados ao magnetismo humano.
Isso porque pesquisas em bioeletromagnetismo, em neurociência da atenção e em psiconeuroimunologia fornecem pistas, mas não respostas completas.
Isso é a condição normal de qualquer campo que trabalha nas fronteiras do conhecimento estabelecido.
O que a ciência já documenta com consistência é que estados de atenção dirigida, presença intencional e contato terapêutico produzem efeitos mensuráveis sobre o sistema nervoso autônomo, sobre marcadores de estresse e sobre a percepção subjetiva de bem-estar.
Ou seja, esses efeitos independem da explicação que se dá a eles.
Um magnetizador que acredita estar canalizando fluido universal, outro que acredita estar mediado por espíritos de luz e um terceiro que compreende sua ação em termos de modulação do campo bioelétrico podem estar produzindo efeitos semelhantes por razões que cada um explica de forma completamente diferente.
Isso sugere que o substrato da prática é mais robusto do que qualquer teoria isolada sobre ele.
Além disso, sugere que a disputa entre explicações religiosas e científicas pode ser, em grande parte, uma disputa sobre linguagem, não sobre fenômenos.
O magnetismo é uma prática que pertence a todos?
O magnetismo humano não é religião, nunca foi em sua origem e não precisa ser em sua prática contemporânea.
Ou seja, ele foi adotado por tradições religiosas, reinterpretado dentro de suas cosmologias e transformado em elemento central de algumas delas.
Isso aconteceu porque a prática tem um poder real de afetar estados humanos, e esse poder é atraente para qualquer sistema que se proponha a cuidar de pessoas.
Aprender magnetismo pela sua raiz histórica e técnica é aprender uma prática que pertence à humanidade antes de pertencer a qualquer tradição específica.
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